domingo, 3 de outubro de 2010

Eu, meu Celta e a inspeção veicular.

Neste último sábado, levei meu carro para a inspeção veicular obrigatória, após ter pago chorados 70 reais por uma consulta que seria de, no máximo, 10 minutos e aguardar por quase um mês um horário em que pudesse levar meu Celta 1.0, preto, básico, carinhosamente apelidado de "Lotus".

Todo mundo sabe o amor que sinto por esse carro. Ele é como um filho e como tal, gera inúmeras despesas, todas pagas com as 12 horas-diárias-de-trabalho-nosso-de-cada-dia. Seria o dia de levá-lo ao médico. Paciente, aguardei pelos 10 minutos da vistoria rígida, quando o rapaz comenta:

- É infelizmente, seu carro está reprovado no teste.
- Como assim?Acabei de trocar óleo, comprei 2 pneus, a bateria está novinha, com menos de 2 semanas, posso garantir que...
- É só uma borrachinha que precisa trocar. Ela não tem tanta importância, mas com ela gasta como está, precisa ser trocada. Optei por reprovar. Aguardo seu retorno.

Entendo. Entendo pagar os maiores impostos do mundo. Entendo andar por estradas de merda. Entendo pagar um preço absurdo por um combustível de má qualidade e pagar pedágios que, pelo preço que cobram, só podem me separar do céu. Mas não posso entender meu Celtinha 1.0, preto, básico, carinhosamente apelidado de "Lotus", ser reprovado no teste.

Voltei para casa um tanto desolado. As notas D nas provas de matemática não doíam tanto. O máximo que engatei na volta foi uma terceira que me apertava a alma. Eu precisava ir devagar pra pensar em uma justificativa plausível para entender a tal reprovação. Como não encontrei, fiz melhor: como vivemos neste país de liberdade de expressão (por favor, não me façam tirar este post), resolvi inverter a ordem das coisas: eu vou avaliar o que o governo fez por mim e pelo meu Celtinha 1.0, preto, básico, carinhosamente apelidado de "Lotus".

Voltando pela Faria Lima, não pude deixar de observar e pegar um trânsito de 30 minutos para percorrer 3 kilômetros. Não vi nenhum acidente grave e muito menos algum policial ou CET nos ajudando para chegarmos com segurança. Então, optei por reprovar a Faria Lima e o trânsito no estado mais rico da união. É coisa boba, mas, enfim, vamos reprovar.

Ao passar pelo posto Shell, não pude deixar de observar o custo elevado para colocar alguns litros de álcool. Olhei para a minha carteira que me olhou de volta quase suplicando "não me abra", mas tive que deixar 20 reais para continuar viagem. Então, optei por reprovar o preço abusivo do álcool em um dos países que mais tem plantação de cana no mundo.

Passei pelo rio Pinheiros e não pude deixar de observar e sentir o cheiro podre de esgoto não tratado sendo despejado no mesmo. Senti inveja dos judeus presos nas câmeras de gás na segunda guerra mundial. Ficar preso no trânsito sentindo aquele odor era para poucos. Mas não para mim. Então, optei por reprovar a qualidade do rio Pinheiros, sua sujeira e seu esgoto não tratado num estado que se orgulha de ter 70% do seu esgoto tratado. Eu devo ser muito azarado, pois só convivo com os outros 30%.

Quase chegando em casa, fui acometido por uma cena forte. No carro da frente, dois rapazes em uma moto, mostravam a arma para a mulher e levavam sua bolsa e seu rádio, frutos de 12 horas-diárias-de-trabalho-nosso-de-cada-dia. Por incrível que pareça, assim que passei por ela, observei sua expressão calma, tranquila e serena, como se aquilo fosse uma coisa banal. Por mim, pelo meu Celta 1.0, preto, básico carinhosamente apelidado de "Lotus" e pela mulher, optei por reprovar a segurança do estado de São Paulo, lugar onde morre-se mais pessoas em um ano do que em toda a guerra no Iraque.

Na rua de trás da minha casa, de nome Alencar Araripe, não pude deixar de observar os oitocentos e setenta nove buracos pelos quais tive que atravessar. De todos os tamanhos, tipos e cada qual com sua funcionalidade: quebrar meu escapamento, desalinhar meu carro ou furar meu pneu. Então optei por reprovar as ruas e avenidas do nosso país e toda a operação de tapa buracos. Não quero que tampem os buracos, quero novas ruas e asfalto de qualidade, com mais de 6 meses de garantia.

Como estou melhor depois de exercer meu direito de cidadão e dividir a responsabilidade por um país melhor!É o "livre arbítrio" de querer um carro (e um país) melhor. Ação e reação, como tudo na vida.

Governo, fique tranquilo que retornarei para trazer meu Celta 1.0, preto, básico carinhosamente apelidado de "Lotus" para a revisão. Ah, mas também "aguardo o seu retorno".

Guilherme Vilaggio Del Russo

7 comentários:

Paula disse...

Muito bom, tuco! Se todos tivessem a sua consciencia estaríamos em um páis melhor...

Humberto disse...

Oi!
Entrei no seu blog por acaso, achei muito legal mesmo, não queria sair sem dizê-lo.
Aproveito para te convidar a visitar o meu que é de literatura.
Humberto desde Argentina.

www.humbertodib.blogspot.com

Aline Borghi disse...

Fantástico o post....Reprovo a quantidade de impostos que pagamos pra ter um Brasil melhor!

meperdidemim disse...

entrei aqui e adorei, amigo continua escrevendo, vc passa uma realidade de maneira direta e objetiva. muito bom, abraços
me visite:
http://meperdidemim.blogspot.com

Doroni Hilgenberg disse...

Nossa... vc até que reprovou pouco... não há nada nesse pais que mereça uma aprovação, salvo seu celta preto, carinhosamnete chamado de Lotus e que foi reprovado por quimeras.
Gostei do Blog
bjs

Cintia Mabilde disse...

Sem querer, cai na sua página.
Adorei esse post. parabéns!

Prii Fernandes disse...

meu, muito bom. adorei seu post.