terça-feira, 11 de março de 2008

Baile

O divórcio do silêncio profundo com o mais bonito escuro de olhos fechados, se deu com uma nota de piano; ela vibrou até que morresse muda. Queria não conseguir escutar os passos deslizando bem longe de mim, no salão do baile de formatura que não fomos. Os saltos riscam os nossos nomes no chão enquanto eles dançam a nossa valsa. Roubaram a nossa música, ela não se encaixa na festa deles. Nem o nosso vazio caberia no peito deles.A umidade nas paredes do meu mundo apodreceram o meu cérebro. Se cai um cisco, aqui dentro é tempestade e o céu desaba à terra.

Milena Lieto Samczuk

terça-feira, 4 de março de 2008

Tempo

Quanto dura a dor? Quanto dura o som, o amargo na boca e a imagem de um pensamento?
O tempo não respeita, ignora o nosso humor. É sensação, incalculável.
De tentar aprisioná-lo em números, gritamos a nossa escravidão perpétua. Criamos a maior distância de todas. Mimamos uma criança que contradiz às normas das nossas vontades. Quando ralentado vira o tédio, tão doloroso quanto uma súplica mal ouvida. Mas quando apressado é ladrão, roubando seu rosto jovem dos meus olhos, decompondo sentimentos e como uma traça desfazendo épocas, igual o asfalto que desgasta a sola do sapato. Um reflexo inverso do que quero, alheio aos meus movimentos. É uma esteira correndo, desprezando as pernas cansadas, arrasta qualquer um. As vezes aparece como o vento, sem cor ou forma, nos fazendo sentir o calor dos dias e o frio rigoroso dos longos anos. Há segundos mais demorados que semanas, e meses mais curtos que minutos.
Mesmo presa, prometo que por você, vou afogar meu passado, atravessar o presente e te colocar no futuro, no meu futuro.

Milena Lieto Samczuk

A Cortina da Minha Sala

Ontem pela noite vi que uma mariposa tinha acabado de pousar na cortina de minha sala, o que me trouxe a sensação de sorte. Sei lá, mas estes últimos dias, tenho reparado mais na cortina de minha sala. Ela andava tão suja e tão fechada que era impossível ver o que vinha adiante. Ela encobria o que vinha depois. Confesso que não vi ninguém tirando a cortina para lavar, muito menos vi alguém abrindo-a. Mas hoje ela me parece tão mais viva, tão mais transparente e bonita, que vejo, não só a mariposa que me indica sorte, mas também o que está atrás dessa cortina: o futuro, o logo-em-seguida, o dia depois.
Ah, se minhas cortinas falassem. Só elas me acompanharam durante dias felizes, dias de sol, de granizo, dias que eu esperava por alguém, dias em que eu só queria usar os panos delas para me esconder. Me deu a oportunidade de ver um futuro feliz e se fechou rápido quando eu precisei de um tempo só a mais na minha sala.
Cada dia mais tenho certeza que vejo a cortina do jeito que eu gostaria que vê-la e não como ela realmente é. E ela andava tão fechada.

Mas nunca é tarde para abrí-la e ver a poeira da sala se renovando um pouco. E você, como está a cortina da sua sala?


Guilherme Vilaggio Del Russo

domingo, 2 de março de 2008

Sonhos a sua maneira

Parei de tentar te advinhar. Já ficou cansativo decifrar seus braços cruzados, o silêncio acumulado pelos cantos. A vibração da porta que você bateu foi o pior dos socos que eu já tomei. Me tranquei no quarto com as luzes apagadas, e o cheiro forte da saudade quase me sufocou. Você e essa sua péssima mania de me deixar sempre o mais perto do chão. Somos tão diferentes quanto o oposto do oposto. Temos os mesmos medos e não venha você me dizer que a gente querer a mesma coisa é coincidência. Meu receio é de que a gente não termine, mas passe da validade.

Milena Lieto Samczuk