Parei de tentar te advinhar. Já ficou cansativo decifrar seus braços cruzados, o silêncio acumulado pelos cantos. A vibração da porta que você bateu foi o pior dos socos que eu já tomei. Me tranquei no quarto com as luzes apagadas, e o cheiro forte da saudade quase me sufocou. Você e essa sua péssima mania de me deixar sempre o mais perto do chão. Somos tão diferentes quanto o oposto do oposto. Temos os mesmos medos e não venha você me dizer que a gente querer a mesma coisa é coincidência. Meu receio é de que a gente não termine, mas passe da validade.
Milena Lieto Samczuk
domingo, 2 de março de 2008
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
Dissabor
Sei que praça não tem gosto, mas aquela parecia deliciosa. Atravesso ela todos os dias, e só hoje ao notar que os bancos - muito bonitos, é verdade - não tinham encosto, me senti bastante atraída pelas mesinhas de madeira da cafeteria de paredes de vidro. Confesso a vergonha, e só comprei um café para poder me sentar alí. A brisa descontraída flertava com a sombra fresca, e essa me pedia um pouco de leitura. Tratando-se de um livro pequeno, de capa azul claro, com uma sinopse bastante interessante, insisti em lê-lo já sabendo que ele não consegue prender meus olhos, continuei pelo tamanho do carinho que guardo por quem me indicou. Mas as palavras complicadas e muito bem escolhidas logo me perderam para a caneta e o restinho de papel que carrego na bolsa.
Hoje saí de casa com o sangue quente de discussão, quase chorando de raiva, minha caligrafia ainda sofre por consequência. Porém, agora estou calma. Sentados a minha frente, me divertem um casal de alemães conversando, mesmo assim, não me livrei do tédio. Nesses últimos dias tenho me feito de assassina só para matar o tempo. E essa manhã só valeu pelo gostinho de mantecal que me sobrou na boca. Juro que se soubesse que esse café é tão bom, teria começado a freqüentar aqui a mais tempo.
Ao telefone, na noite anterior, prometi ao meu amigo que lhe escreveria uma lista das coisas que eu gostaria de fazer antes de morrer, e ele me faria o mesmo. Anotei uns vinte itens que apesar de muito atrativos me enchem de preguiça. Sabe, as vezes acho que o desânimo implora para que eu fiquei sem fazer nada, e me faz querer justamente isso. Então, pra que lista?
Milena Lieto Samczuk
Hoje saí de casa com o sangue quente de discussão, quase chorando de raiva, minha caligrafia ainda sofre por consequência. Porém, agora estou calma. Sentados a minha frente, me divertem um casal de alemães conversando, mesmo assim, não me livrei do tédio. Nesses últimos dias tenho me feito de assassina só para matar o tempo. E essa manhã só valeu pelo gostinho de mantecal que me sobrou na boca. Juro que se soubesse que esse café é tão bom, teria começado a freqüentar aqui a mais tempo.
Ao telefone, na noite anterior, prometi ao meu amigo que lhe escreveria uma lista das coisas que eu gostaria de fazer antes de morrer, e ele me faria o mesmo. Anotei uns vinte itens que apesar de muito atrativos me enchem de preguiça. Sabe, as vezes acho que o desânimo implora para que eu fiquei sem fazer nada, e me faz querer justamente isso. Então, pra que lista?
Milena Lieto Samczuk
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
Intervalo
Perdi uma consulta, um sonho que esqueci dentro de qualquer gaveta e boa parte da minha alegria que ficou no ensino médio - essa última eu ainda recupero. Desisti muito do curso, do curso da minha vida. No meio da ponte eu peguei no sono, quando levantei era tarde demais.
Malditos comprimidos! Me atrasavam, comprimiam minha energia ao tamanho de uma ervilha. Eu faltava estando presente, com a cabeça sempre mergulhada na carteira, sufocada em um apartamento pequeno confundindo as minhas vontades utópicas. Duas famílias diferentes separadas apenas por uma parede fina de concreto. Hoje escolhi morar com a realidade de pés no chão. Eu devia ter me mudado a muito mais tempo.
- Mi, acorda! Vamos descer pro intervalo.
Milena Lieto Samczuk
Malditos comprimidos! Me atrasavam, comprimiam minha energia ao tamanho de uma ervilha. Eu faltava estando presente, com a cabeça sempre mergulhada na carteira, sufocada em um apartamento pequeno confundindo as minhas vontades utópicas. Duas famílias diferentes separadas apenas por uma parede fina de concreto. Hoje escolhi morar com a realidade de pés no chão. Eu devia ter me mudado a muito mais tempo.
- Mi, acorda! Vamos descer pro intervalo.
Milena Lieto Samczuk
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
Apressado...
Como conseqüência inevitável de viver em São Paulo, tornei-me apressado demais. Apressado até mesmo no meu andar tranqüilo, característica tão presente em mim. Para nós, paulistanos, as horas passam mais depressa, assim como o que acontece com em nossas vidas. O gesto que eu deixei para ontem já não me cabe mais hoje, ela já não se faz necessário. Até meus sapatos andam mais desgastados que normalmente e me pedem um descanso. Mas, além de apressado, ando meio teimoso.
“A pressa é inimiga da perfeição” é um ditado fora de moda para mim. Hoje, tomo ações que só vão se mostrar se foram corretas ou erradas, daqui para frente. Ando apressado e mesmo assim, sou escravo do futuro. Ando me apressando para conhecer o que não se escolhe hora certa para acontecer. Talvez seja a hora de puxar o freio de mão.
“Mal entendi ... do” que falou uma vez meu pai, quando me disse que “Tem certas coisas que a gente não escolhe tempo para acontecer, elas acontecem” e algumas delas simplesmente acontecem na hora errada, bagunçada da nossa vida. Ou acontecem e a gente não queria. Mas acho que tudo na vida tem seu tempo, e quem não precisa de tempo? O tempo também pede tempo, e a partir de agora, eu lhe dou.
"Mal entendi… do" que falou outra grande pessoa para mim, quando me disse “La vida és hoy y hay que vivir-lá intensamente.” Logo eu, que vivo brincando com as palavras, escolho o pior significado delas nesta frase, só aquela que me convinha para meu próprio bem estar.
Ando apressando pés e o coração e hoje eles me pediram um tempo. Tem horas que meus sapatos pedem uma estadia maior nas prateleiras. E o coração, batidas de 80 por minuto.
Preciso apressar-me em deixar de ser assim, tão apressado…
Guilherme Vilaggio Del Russo
“A pressa é inimiga da perfeição” é um ditado fora de moda para mim. Hoje, tomo ações que só vão se mostrar se foram corretas ou erradas, daqui para frente. Ando apressado e mesmo assim, sou escravo do futuro. Ando me apressando para conhecer o que não se escolhe hora certa para acontecer. Talvez seja a hora de puxar o freio de mão.
“Mal entendi ... do” que falou uma vez meu pai, quando me disse que “Tem certas coisas que a gente não escolhe tempo para acontecer, elas acontecem” e algumas delas simplesmente acontecem na hora errada, bagunçada da nossa vida. Ou acontecem e a gente não queria. Mas acho que tudo na vida tem seu tempo, e quem não precisa de tempo? O tempo também pede tempo, e a partir de agora, eu lhe dou.
"Mal entendi… do" que falou outra grande pessoa para mim, quando me disse “La vida és hoy y hay que vivir-lá intensamente.” Logo eu, que vivo brincando com as palavras, escolho o pior significado delas nesta frase, só aquela que me convinha para meu próprio bem estar.
Ando apressando pés e o coração e hoje eles me pediram um tempo. Tem horas que meus sapatos pedem uma estadia maior nas prateleiras. E o coração, batidas de 80 por minuto.
Preciso apressar-me em deixar de ser assim, tão apressado…
Guilherme Vilaggio Del Russo
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